Você se considera um pai ou mãe coruja? Tudo bem! Afinal, não há nada mais
normal no mundo do que vibrar com as conquistas dos filhos e querer contar para
todo mundo quão talentosos eles são. Mas segundo um estudo realizado pela
Universidade da Califórnia, é preciso tomar cuidado, pois nem sempre esse
entusiasmo corresponde à realidade.
A pesquisa mostrou que os pais
costumam superestimar as habilidades e qualidades de seus filhos e subestimar
suas dificuldades e medos. Em outras palavras, eles costumam achar que o
desempenho das crianças em matemática, gramática e até mesmo o modo que as
crianças encaram a vida são mais positivos do que de fato são.
"Acreditamos que essa discrepância entre imagem e realidade também pode
se aplicar à forma como os pais percebem o bem-estar emocional de seus filhos",
diz Kristin Lagattuta, pesquisadora líder do estudo.
Para chegar a essa conclusão, mais de 500 crianças com
idades entre 4 e 11 anos responderam a um questionário avaliando suas emoções.
As questões envolviam ansiedades comuns da infância, como medo do escuro ou algo
de ruim acontecer a um membro da família. Posteriormente, os pais responderam às
mesmas questões segundo o que eles acreditavam ser as respostas emocionais de
seus filhos para aquelas situações.
Os resultados evidenciaram a
diferença entre a autoimagem das crianças e a expectativa dos adultos. Os filhos
deram classificações mais elevadas para suas preocupações e mais baixas para
seus sentimentos de otimismo do que seus pais.
Realidade X
Expectativa “Os filhos são pedacinhos dos pais, levam nossa
assinatura. Assim, é comum que queiramos sempre atenuar seus defeitos e exaltar
suas qualidades, pois isso não deixa de ser um elogio ao nosso desempenho como
genitores”, explica Rita Calegari, psicóloga do Hospital e Maternidade São
Camilo (SP).
A profissional lembra como é difícil para qualquer pessoa
admitir seus pontos fracos e que com os filhos essa dificuldade fica ainda mais
exacerbada. “O problema é quando o pai ou a mãe passa a confundir a expectativa
com a realidade. Isso pode ser prejudicial para o desenvolvimento da criança,
porque ela não saberá lidar com críticas, fracassos, além, é claro, da pressão
de ter que corresponder com as idealizações dos pais que nem sempre correspondem
com o que elas são ou desejam ser”, alerta Rita.
Para a psicóloga, é
essencial ensinar a criança desde pequena a ouvir críticas. “A família é um
pequeno exemplo de sociedade. Ao educar, os pais precisam lembrar que um dia os
filhos terão empregos, chefes e serão cobrados. Se sempre ouviram que são o
máximo dentro de casa, poderão se frustrar e não se adaptar à realidade fora
dela.”
Do outro lado, se pai e mãe não conseguem reconhecer os temores e
dificuldades de seus filhos, não poderão ajudá-los. "Isso pode afastá-los e
encurtar o diálogo, pois a criança se sentirá incompreendida dentro daquele
espaço e não conseguirá se abrir", diz Camila D'Amico, coordenadora pedagógica
do Colégio Graphein (SP). É fundamental estar sempre atento e aberto para ouvir
o que a criança tem para dizer, sem criticá-la e não achar que tudo é “coisa de
criança”.
Tudo bem fazer planos para os filhos, mas eles devem
ser pensados diante das reais capacidades deles e conforme suas vontades. "Criar
filhos é possibilitar que eles desenvolvam suas potencialidades e
características próprias, que estejam aptos para ser aquilo que querem ser",
lembra Camila.
Outro ponto que o estudo levanta é a necessidade de ouvir
a criança quando um psicólogo ou qualquer outro profissional realiza uma
avaliação de seu bem-estar emocional. “Como alguns estudiosos acreditam que
crianças com menos de 7 anos não conseguem informar com precisão como se sentem,
frequentemente as avaliações levam em consideração as impressões dos pais e de
outros adultos”, diz Kristin. "Esses novos resultados sugerem que essas
considerações devem ser tratadas com cautela."
Fonte: Crescer